sábado, 28 de setembro de 2019

COLUNA DA CARLA OLIVEIRA



PASSEIO PELA HISTÓRIA NOS MONUMENTOS DO CENTRO DE ARACAJU/SE

Parte VI

Identidade Cultural

Como vimos, para que algo possa merecer a pretensão de patrimônio histórico cultural, é necessário que determinado grupo, ou seja, que a coletividade identifique esse algo como importante, selecione-o, e dessa forma o eleja como objeto de preservação.

A identidade cultural entra como instrumento que sustentará o discurso que une diferentes grupos e categorias sociais sob uma mesma identidade.

A identidade é o que o une um grupo em torno de um espírito de pertencimento, e é o que faz este grupo se identificar com determinado bem histórico cultural.

Esse sentimento de compartilhamento torna possível todo o processo de tombamento, ao qual um bem é sujeitado, para que se torne um patrimônio histórico, artístico e cultural, de determinadas sociedades.

Outra contribuição que nos será muito preciosa é a de Carlos A. S. Lemos (1987)[17], que escreveu um livro que fala somente sobre Patrimônio Cultural, e que serve de uma ótima cartilha elucidativa para os iniciantes em questões patrimoniais. E assim ele inicia o seu livro:

Ultimamente, os jornais, as revistas e a própria televisão estão a dar ênfase a um assunto até há pouco sem interesse maior ao povo, que é esse tema ligado às construções antigas e seus pertences representativos de gerações passadas e que, englobadamente recebem o nome genérico de “Patrimônio Histórico”, ao qual, às vezes, também é aposta a palavra “Artístico”. Na verdade, essa expressão usual [...] abrange somente um segmento de um acervo maior, que é o chamado Patrimônio Cultural de uma nação ou de um povo.[18]

 

É com esta analise que Lemos começa seu trabalho escrito no início dos anos 1980. Nos encontramos em pleno século XXI e nos arriscamos a falar que, no que diz respeito a patrimônio, muita coisa mudou, porém ainda há um longo caminho a percorrer até que o povo reconheça seu patrimônio e se considere parte de um processo maior, o qual chamamos, História.

Ao esclarecer a natureza do patrimônio, o autor declara que “Podemos ver também que é incomensurável o número total de bens que compõem o Patrimônio Cultural de um povo, de uma nação ou de um pequeno município”[19].

Lemos analisa as transformações funcionais que determinados ‘artefatos’, ou seja, monumentos, sofrem com o passar dos anos, e usa como exemplo as modificações sofridas por vezes em pequenas casas habitacionais.

Com o progresso e as novas facilidades a sua “casinha” do quintal, que abrigava a latrina sobre a fossa negra, foi substituída pelo banheiro completo feito num puxado anexo à cozinha velha que, por sua vez, teve seu fogão a lenha substituído pelo aquecido a gás, e cada família sucessiva que nela habita vai deixando sua marca nos agenciamentos internos; mas que chega um tempo em que a construção realmente não pode mais oferecer o conforto exigido pelas novas concepções de bem morar de uma determinada classe social e, então, vemos a construção perder sua compostura antiga, sendo fracionada em habitáculos multi-familiares; e de degradação em degradação chega ao seu dia de demolição para dar lugar a edifício concebido dentro das novas regras do conforto ambiental e dentro de outras condições financeiras.[20]

 

O fragmento acima foi selecionado por ilustrar perfeitamente bem a natureza das relações sociedade-patrimônio histórico cultural, no nosso contexto cultural.

Apesar de Lemos ter produzido seu livro na década de 80 e terem decorrido mais de vinte anos, e nesse período termos transposto um século, muito pouca coisa mudou no que diz respeito ao patrimônio.

Sua pouca divulgação é uma delas. Semelhante as mutações sofrida pelas pequenas casas analisadas por Lemos, os edifícios antigos muitas vezes sofrem o mesmo descaso.

CONTINUA

 



PASSEIO PELA HISTÓRIA NOS MONUMENTOS DO CENTRO DE ARACAJU/SE

Parte V

Classificação dos bens patrimoniais

Antes de prosseguir com as definições é necessário entrar agora no terreno da classificação dos bens patrimoniais. Reconhecemos que é muito complexa a divisão ao qual se convencionou o patrimônio no mundo, e esta precisa ser cuidadosamente analisada.

Mas sem ela não será possível prosseguir, pois à medida que avançamos, mais relevante se torna compreender como os especialistas definiram o patrimônio.

Dentro do conceito de patrimônio existem diversas categorias que foram sendo criadas para melhor organização e estrutura. O patrimônio pode ser classificado como sendo cultural, histórico, artístico, arqueológico, natural.

Dentro de cada uma dessas classificações, existe ainda a noção de patrimônio material e imaterial.

No patrimônio dito material ou conhecido também como tangível, estão inseridos os monumentos históricos, os conjuntos urbanos, locais sagrados, obras de arte, tesouros subaquáticos, objetos pré-históricos, peças arquitetônicas.

Neste grupo podemos observar também o que hoje se conhece por patrimônio natural, e aí estão incluídos os parques nacionais, paisagens que no decorrer da História foram sendo modificadas pela ação do homem, ecossistemas, assim como a biodiversidade.

No que chamamos patrimônio imaterial ou intangível, estão as tradições da cultura oral de determinados grupos humanos.

Voltaremos agora a refletir sobre o conceito de patrimônio trazendo a discussão para o âmbito da realidade brasileira, é necessário colocar que ‘a idéia de patrimônio esteve associada a tudo aquilo que se relaciona com a herança cultural ibérica’[11]. (Nunes; Lima, p.10)

A primeira preocupação com a preservação de um bem cultural estava intimamente ligada a presença e participação dos portugueses no processo de colonização do Brasil.

Essa mentalidade durou até o século XX, quando finalmente a partir da década de 1930 mudanças significativas começam a transformar o campo das ações patrimoniais no país.

Mas a década do auge das preocupações sobre a preservação do patrimônio cultural do Brasil foi a década de 70.

Os anos 70 (do século XX) colocam novos interesses no universo do patrimônio, sendo que o período imperial passou a ser visto com mais interesse. Ao mesmo tempo, as manifestações culturais populares – artesanato, ritos, festas –, que até esse período eram objeto de estudo de folcloristas e etnólogos, passaram a ser merecedoras de uma maior atenção e consideradas patrimônio.[12]

 

Outra contribuição que aqui será aproveitada encontra-se na obra dos historiadores Pedro Paulo Funari e Sandra C. A. Pelegrini (2006) que trabalham as questões patrimoniais a partir de definições conceituais que não apenas enriquecem como também esclarecem as ambigüidades que a própria palavra ‘patrimônio’ abarca. Esses historiadores trabalham as duas idéias mais comuns na mentalidade das pessoas no que concerne a patrimônio. No entanto, essas idéias estão ligadas ao patrimônio individual e particular de cada um.

Em primeiro lugar, pensamos nos bens que transmitimos aos nossos herdeiros – e que podem ser materiais, como uma casa ou uma jóia, com valor monetário determinado pelo mercado. Legamos, também, bens materiais de pouco valor comercial, mas de grande significado emocional, como uma foto, um livro autografado ou uma imagem religiosa do nosso altar doméstico. Tudo isso pode ser mencionado em um testamento e constitui o patrimônio de um indivíduo. A esse sentido legal do termo, devemos acrescentar outro, não menos importante: o patrimônio espiritual. Quando pensamos no que recebemos de nossos antepassados, lembramo-nos não apenas dos bens materiais, mas também da infinidade de ensinamentos e lições de vida que eles nos deixaram.[13]

 

Trabalhamos até aqui a concepção de patrimônio do ponto de vista do indivíduo, do que cada um define como sendo importante. No entanto, a concepção que nos interessa está centrada na coletividade, naquilo que passa a ser importante e que interessa a toda a comunidade e conseqüentemente a sociedade de uma maneira geral.

Essa concepção é mais complexa, e logo mais difícil de se definir, e ainda mais difícil de se aplicar nos discursos em pról da defesa e manutenção dos monumentos históricos. Para auxiliar na compreensão do que venha a ser coletividade Funari e Pelegrini (2006) fazem a seguinte observação:

A coletividade não é um simples soma de indivíduos, assim como o todo não é uma mera junção das partes, como afirmou, há 2.500 anos, o filósofo grego Platão. Podemos lembrar também o que diz outro pensador antigo, Aristóteles, ao assinalar que as palavras não são apenas a junção de letras, como um animal não é soma de órgãos. As coletividades são constituídas por grupos diversos, em constante mutação, com interesses distintos e, não raro, conflitantes. Uma mesma pessoa pode pertencer a diversos grupos e, no decorrer do tempo, mudar para outros. Passamos, assim, por grupos de faixa etária: crianças, adolescentes, adultos, idosos. Passamos ainda de estudantes a profissionais e, em seguida, a aposentados. São, portanto, inúmeras as coletividades que convivem em constante interação e mudança.[14]

 

É a coletividade que determinará o que é importante e por isso passível de ser preservado e o que merece ser esquecido.

Como visto que as coletividades são múltiplas e variam de acordo com os interesses de cada grupo, logo não é uma tarefa fácil determinar o que é digno do direito de memória.

Os interesses também variam, e vão desde a relevância histórica à artística, mas todos podem de certa forma serem englobados na relevância cultural. A preservação da memória se dá quando se reconhece a relevância de um determinado bem, seja ele material ou imaterial.

O direito de memória ao qual está ligado a função de preservar um bem cultural é o que justificativa tal preservação. “Preservar é a palavra-chave quando se pensa em memória, e remete à idéia de proteção, cuidado, respeito”[15], é o que nos diz Felícia Assmar Maia em seu artigo.

Tomando as concepções analisadas por FUNARI sobre o papel da memória no que diz respeito a conservação temos o seguinte:

Há não muito tempo, Joachim Hermann (1989: 39) sugeriu que “uma consciência histórica é estreitamente relacionada com os monumentos arqueológicos e arquitetônicos e que tais monumentos constituem importantes marcos na transmissão do conhecimento, da compreensão e da consciência históricos”. Não há identidade sem memória, como diz uma canção catalã: “aqueles que perdem suas origens, perdem sua identidade também” (Ballart 1997:43). Os monumentos históricos e os restos arqueológicos são importante portadores de mensagens e, por sua própria natureza como cultura material, são usados pelos actores sociais para produzir significado, em especial ao materializar conceitos como identidade nacional e diferença étnica.[16]

 

Nesse momento entra no campo da discussão algo que ainda não havia aparecido diretamente, mas está implicitamente presente no contexto, a identidade cultural.

CONTINUA




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Parte IV

O Conceito de Monumento

Utilizaremos muito o termo “monumento” para designar o patrimônio. No Guia Básico de Educação Patrimonial os autores definem um conceito, e será este conceito que nos acompanhará ao longo do nosso trabalho, nos apropriaremos dele, e aqui ele será reproduzido na integra.

Um monumento é uma edificação ou sítio histórico de caráter exemplar, por seu significado na trajetória de vida de uma sociedade/comunidade e por suas características peculiares, de forma, estilo e função. Existem monumentos construídos especialmente para celebrar ou relembrar algum episódio, momento ou personagem de nossa História [...] Outros são remanescentes do passado, que sobreviveram ao tempo, e que são consagrados pela sociedade como símbolos coletivos, e como referências da memória de um povo. Em suas estruturas, formas e uso, revelam um monumento determinado do passado, e são testemunhas dos modos de vida, das relações sociais, das tecnologias, das crenças e valores dos grupos sociais que os construíram, modificaram e utilizaram.[6]

 

A historiadora Françoise Choay em seu livro A Alegoria do Patrimônio trabalha o conceito de monumento histórico em si mesmo, atribuindo-lhes um valor cognitivo e um valor artístico.

A respeito do valor cognitivo Choay (2006) esclarece: Cumpre observar, porém, que no século XIX a economia dos saberes centrou a função cognitiva do monumento histórico no domínio, recém-determinado e ainda em fase de organização, da História da arte[7].

Em dado momento a autora crítica a relação que os historiadores tinham com os monumentos históricos, e a faz da seguinte forma: No século XIX, os historiadores que queriam e sabiam olhar os monumentos antigos eram exceções e continuaram sendo por muito tempo[8].

Era preciso desenvolver um senso crítico, que criasse no espírito não somente dos historiadores, mas de um modo geral, no espírito da sociedade, um reconhecimento do valor artístico e histórico dos monumentos.

Podemos até correr o risco de sermos otimistas demais, e afirmar que diante de tantas preocupações e discussões a cerca de conceitos como monumento artístico e histórico, patrimônio cultural e preservação patrimonial, sem esquecer é claro o conceito, ou melhor, os conceitos de educação patrimonial, que atualmente o reconhecimento do valor histórico, artístico e cultural em torno das questões patrimoniais está crescendo cada vez mais.

Porém veremos que ainda há muito que fazer. É claro que Choay trabalha essas questões ambientadas na França, mas os questionamentos levantados são altamente pertinentes para se compreender as mudanças ocorridas na mentalidade social e nas políticas públicas relacionadas ao patrimônio cultural no mundo.

A Constituição Federal do Brasil em sua Seção II – Da Cultura, visa constituir um conceito de patrimônio e assegurar a manutenção e proteção deste na forma legal.

Embora ainda estejamos discutindo o conceito de patrimônio e não começamos a discutir ainda a questão da preservação, esta seção da Carta Magna de nosso país, fornece um quadro do que legalmente se constitui patrimônio. E por este motivo transcrevemos aqui o trecho a que nos referimos.

Art. 216. Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem:

I – as formas de expressão;

II – os modos de criar, fazer e viver;

III – as criações científicas, artísticas e tecnológicas;

IV – as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais;

V – os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico.

§ 1º O Poder Público, com a colaboração da comunidade, promoverá e protegerá o patrimônio cultural brasileiro, por meio de inventários, registros, vigilância, tombamento e desapropriação, e de outras de acautelamento e preservação.

§ 2º Cabem à administração pública na forma da lei, a gestão da documentação governamental e as providências para franquear sua consulta a quantos dela necessitem.

§ 3º A lei estabelecerá incentivos para produção e o conhecimento de bens e valores culturais.

§ 4º Os danos e ameaças ao patrimônio cultural serão punidos, na forma da lei.[9]

 

Tomaremos também o conceito de patrimônio utilizado pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), órgão criado em 1945, como resultado da preocupação de diversas Nações do mundo de se definir e proteger os bens culturais da humanidade. A UNESCO tem sob sua égide o objetivo de identificar, avaliar, credenciar e também tombar bens em todas as partes do mundo, ou seja, tem como objetivo salvaguardar o patrimônio cultural.

Recentemente a UNESCO elegeu a Praça São Francisco no município de São Cristóvão, em Sergipe, como Patrimônio Cultural da Humanidade.

A primeira convenção referente ao patrimônio mundial, cultural e natural foi adotada pela conferência geral da UNESCO em 1972. A partir do reconhecimento da importância da diversidade, a grande novidade consistiu em considerar que os sítios declarados como patrimônio da humanidade pertenciam a todos os povos do mundo. [...] A UNESCO lançou diversas campanhas internacionais para salvaguarda do patrimônio cultural, a maioria na Ásia e nos países árabes, mas também em outras áreas, inclusive Brasil, Argentina e Paraguai, em 1988, para proteger as missões jesuíticas. Uma de suas preocupações é a catalogação de mais de duas dezenas de sítios patrimoniais da humanidade ameaçados; uma convenção de 1970 trata do tráfico ilícito de bens culturais. O órgão tem atuado também na formação de pessoal e em programas de ensino médio, e exortado os países para que as populações locais sejam estreitamente associadas à planificação e às ações concretas de salvaguarda.[10]

CONTINUA

 





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Parte III

PATRIMÔNIO CULTURAL E MATERIALIDADE

O que definimos como Patrimônio Cultural

Muito se tem discutido e abordado com relação a patrimônio nos últimos 30 anos. Mas afinal, o que é patrimônio? Como se define? Como o relacionamos com o nosso meio? Como o produzimos? Serão estas as questões que buscaremos responder “a priori”.

Ao longo deste episódio tais questionamentos serão analisados e relacionados a alguns conceitos chaves que serão introduzidos aqui, mas serão também trabalhados de forma mais detalhada e abrangente em tópicos posteriores.

Logo, para entendermos melhor o conceito de patrimônio, e dessa forma criarmos um conceito próprio, precisaremos compreender o que é cultura, materialidade, memória, preservação, monumento histórico e identidade cultural. 

Ao longo desse tempo as discussões acerca do conceito de patrimônio foram se intensificando no cenário da cultura mundial. Essas discussões centram-se em questões relevantes para o patrimônio, como manutenção e preservação, assim como exploração dos bens patrimoniais.

Daí a importância de compreendermos melhor cada conceito, e aplicá-los ao nosso estudo. Outra importante abordagem que enriquece esta temática concentra-se no papel da memória na construção da cultura patrimonial e da educação patrimonial.

Tentaremos abordar ao longo deste tópico as discussões que concerne ao que instituímos por patrimônio cultural.

Não podemos esquecer também que alguns conceitos serão tomados emprestados para auxiliar a empreitada de nossa abordagem.

Esses conceitos são o de monumento histórico e identidade nacional, porém serão abordados mais adiante.

Para uma maior compreensão das questões patrimoniais será necessário uma regressão no tempo para conhecer as evoluções pelas quais o conceito passou ao longo da História.

O conceito de patrimônio engloba diversas contribuições de estudiosos e pesquisadores e a primeira contribuição que será utilizada é a da historiadora das teorias e das formas urbanas e arquitetônicas Françoise Choay (2006, p.11) que nos diz que essa “antiga palavra estava, na origem, ligada às estruturas familiares, econômicas e jurídicas de uma sociedade estável, enraizada no espaço e no tempo[1]. 

Corroborando Choay temos Funari (2001, p.1) que contribui falando que a palavra patrimonium referia-se à “propriedade herdada do pai ou dos antepassados, uma herança”[2].

Nota-se aqui que a gênese da palavra patrimônio estava relacionada aos bens que o pai, ou pater[3], de uma família possuía e, entende-se aqui todos os seus pertences, incluindo sua esposa, filhos e também os escravos, além é claro de todos os bens materiais que poderia possuir.

Tal característica, no contexto atual, pode causar em alguns estranheza e até mesmo indignação, porém, analisando o contexto em que surge, compreende-se como algo naturalmente usual e juridicamente instituído.

Retornando a análise para o cerne do conceito, segundo Choay (2006) a ligação também ocorria do ponto de vista econômico e jurídico de uma sociedade, comprovadamente patriarcalista, a exemplo da sociedade romana.

Requalificada por diversos adjetivos (genético, natural, histórico, etc.) que fizeram dela um conceito “nômade”, ela segue hoje uma trajetória diferente e retumbante. Patrimônio histórico. A expressão designa um bem destinado ao usufruto de uma comunidade que se ampliou a dimensões planetárias, constituído pela acumulação contínua de uma diversidade de objetos que se congregam por seu passado comum: obras e obras-primas das belas-artes aplicadas, trabalhos e produtos de todos os saberes e sovoir-faire[4] dos seres humanos. Em nossa sociedade errante, constantemente transformada pela mobilidade e ubiqüidade de seu presente, “patrimônio histórico” tornou-se uma das palavras-chave da tribo midiática. Ela remete a uma instituição e a uma mentalidade. [5]

 

Diante do pouco que foi exposto até o momento, fica claro que o patrimônio é o pertence de alguém, de um indivíduo, ou, como veremos mais adiante, de um grupo. No princípio era o pertence do patrono de uma família, do paterfamilias, ou seja, aquele que detinha o pátrio poder. Mas o conceito evoluiu ao longo do tempo, por ser um conceito móvel, mutável, e foram sendo acrescentados diversos outros sentidos.

CONTINUA

 




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Parte II

O discurso sustentado por nossa sociedade hoje é: NADA É PARA SEMPRE. Nos habituamos a ele, nos acomodamos com esta realidade.

Somos indivíduos dormentes vivendo a era do descartável. As sociedades mais antigas produziam bens para durar a vida inteira, para virar décadas e décadas como testemunhas de sua cultura e de seus feitos.

As construções eram verdadeiras obras de arte, feitas para cruzarem os séculos. Lavava-se tempo para se construir, anos e até mesmo décadas. E o resultado são monumentos que hoje nem com os avanços da engenharia somos capazes de empreender.

Aqueles que projetaram e construíram as Pirâmides do Egito, uma maravilha do mundo antigo, desejaram que elas durassem para sempre.

Este mesmo objetivo estava na mentalidade dos construtores da Catedral de Notre Dame de Paris ou o Big Ben de Londres, assim como o Teatro Municipal do Rio de Janeiro, e tantas outras obras gigantescas, grandiosas pelo simbolismo que carregam até hoje e que foram construídas nos séculos e eras passados. Estes monumentos testemunham uma mentalidade que produzia bens duráveis.

Os móveis antigos eram feitos com muito afinco e dedicação, duravam gerações e gerações, passavam de pais para filhos e netos. Hoje necessitamos trocá-los todos os anos, devido a fragilidade de sua duração.

Os primeiros eletrodomésticos, feitos para acompanharem as famílias até o fim. Hoje são produzidos com prazo de validade, com tempo de duração.

A era da velocidade, é uma era de coisas efêmeras e modismos, e conseqüentemente de esquecimento. Onde produzimos cada vez mais artigos descartáveis visando o lucro e a promoção individual.

Nos orgulhamos em ser uma sociedade cada vez mais evoluída, mas não nos damos conta de que não estamos produzindo patrimônios duráveis.

Os povos antigos transmitiram juntamente com o seu patrimônio valores que ajudaram a construir uma sociedade mais humana.

Neste momento surge a pergunta: Que valores estão sendo transmitidos para aqueles que virão? Se nós não produzimos bens que durem, pois acreditamos que nada dura para sempre?

É neste quadro que buscaremos justificar a importância do nosso trabalho. É por meio de pesquisas e trabalhos que revelem a relevância do patrimônio, e por meio de uma prática docente consciente e crítica, que esta realidade será combatida.

Desta forma o patrimônio existente poderá ser valorizado e novos poderão ser anexados aos já existentes. Tudo dura para sempre se soubermos delegar-lhe o devido valor, prestar-lhe a devida homenagem e promovermos uma proteção eficaz.

CONTINUA




PASSEIO PELA HISTÓRIA NOS MONUMENTOS DO CENTRO DE ARACAJU/SE

Parte I

Apresento uma nova série de textos que aborda, por meio de conceitos e exemplos, um dos relevantes temas de interesse e discussão atual no cenário das relações culturais: Patrimônio Histórico-Cultural.

Ela nasce de uma observação simples e informal do patrimônio da cidade de Aracaju, mais precisamente dos monumentos tombados do seu centro histórico.

Nossa pretensão é contribuir para o enriquecimento das questões patrimoniais por meio de reflexões que visam esclarecer e educar aqueles que se interessam por esta temática. Sendo mais um caminho facilitador para atingir e auxiliar na divulgação de estudos pertinentes ao tema.

Como um trabalho conclusivo de um curso de licenciatura, não poderíamos suscitar discussões sem a promoção de um diálogo entre o patrimônio e educação. Por este motivo refletimos também sobre as atuais políticas de educação patrimonial, seus conceitos e objetivos.

A principio gostaríamos, de deixar claro que não fizemos observação formal e metodológica dentro do ambiente escolar. Nossas observações são resultado de experiências efêmeras da realidade docente adquirida nos estágios curriculares. Mas nossas reflexões se baseiam também em estudos e pesquisas de diversos historiadores e profissionais da educação e do patrimônio.

Os objetivos do nosso trabalho são: promover uma reflexão sobre o patrimônio e tudo o que ele engloba, tendo como referência o patrimônio do centro histórico de Aracaju; divulgar estudos relevantes que complementem o diálogo com o patrimônio; analisar o papel exercido pela educação nas questões patrimoniais e propor uma prática educacional comprometida com o patrimônio histórico-cultural de Aracaju.

Para atingir estes objetivos partiremos das análises dos diversos conceitos apresentados ao longo dos anos. Quando pensamos em todos os bens e monumentos patrimoniais que foram esquecidos, abandonados e até mesmo destruídos, percebemos a relevância de promover trabalhos que buscam fomentar os discursos de preservação.

Espero que vocês gostem dessa leitura!

CONTINUA

Um comentário:

  1. Olá Reino de Clio. Sejam todos bem vindos a esse reino de aventuras históricas. Que eu possa através da minha escrita transmitir e compartilhar com todos o meu amor pela história. Espero que gostem da leitura assim como eu gostei escrever. Muito obrigada.

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